
Feridas
“Depois disse a Tomé: “Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo,
mas crente”. E Tomé respondeu, e disse-lhe: “Senhor meu, e Deus meu!” (Jo 20.24ss)
A Divindade de Jesus repousa gritantemente em Sua natureza humana. É o que concluo da confissão de
Tomé. Quando o discípulo toca nas feridas de Jesus, ele O vê como Deus! Eis todo o sentido meta-narrativo
encontrado no Antigo e concluído no Novo Testamento.
Quão paradoxal1 é a fé cristã. A aparecimento de Jesus a Tomé se dá em sua segunda aparição aos discípulos.
Ausente na primeira aparição, Tomé se recusa a crer no relato dos demais irmãos. Jesus insiste para que Tomé O
toque. O homem confirma ser o Senhor. Põe o dedo na ferida, na dor divina, donde conclui toda a teodramaturgia.
Tomé não creu porque ao tentar tocar no Senhor, o seu dedo traspassou-lhe a ferida ainda aberta. Tomé encostou
o dedo na carne do Senhor! Nas feridas causadas por cravos. Sangue saiu por ela. Este Homem é Deus!
Foram as feridas do Senhor que, para Tomé, testificaram-lhe a divindade? Este é o propósito apologético de
João (Jo 20.31). Jesus é um Deus pessoal, ao ponto de o discípulos dizer: “Senhor meu, e Deus meu!” Ou seja: as
feridas são metáforas àquilo que a razão humana jamais compreenderia per si. As feridas de Deus tornam-No ao
alcance do homem ao ponto de poder-se dizer “meu”. A razão é até capaz de conceber a ideia de Deus, porém, um
deus sempre Transcendente ou Imanente- nunca as duas coisas! A ferida de Deus dá à razão motivos, na existência,
para crer na Verdade.
Ora, Tomé tocou as feridas de Jesus ao mesmo tempo em que o Senhor tocou em suas feridas; isto é, a
incredulidade. Que maravilha! Embora exortado a crer sem ver, Jesus manda que Tomé o Toque e veja para crer! A
fé é tangível também. A censura do Senhor à incredulidade do discípulo ocorre seguida com a dialética divina: “Põe
aqui o teu dedo…”. E, do mesmo processo da incredulidade, a fé crê por tocar, precisamente, naquilo que poderia
comprovar o contrário?
Se ali tem um corpo ferido, como poderia ser Ele Deus? Mas, não é exatamente da incredulidade do homem
que a fé jorrou, assim como da rocha no deserto a água brotou (Nm20.1ss)? Jesus está ressuscitado, mas as feridas
continuam ali em suas mãos. De que modo Deus estaria conosco, senão, que nos apresentasse a Sua ferida? O que
destrói a incredulidade de Tomé não é Deus atravessar a parede, mas entregar-lhe a mão para ser tocada (Lc 24.39)!
É do homem incrédulo uma das maiores confissões cristológicas do Novo Testamento: “Senhor meu e Deus
meu”. Ou seja: Jesus Cristo é Deus. E mais ainda: É meu! O Cristo ressurreto deve ter algum tipo de continuidade
física com o Jesus que foi para a cruz (Jo 7.28) e o propósito é alcançado: posso dizer que Deus é “meu”.
Todavia, não é maravilhoso que Aquele que aparece no recinto fechado peça ao discípulo que considere a
ferida e não o “Seu poder de atravessar paredes”? O conforto é recebido pelas feridas do Senhor: Nada tão humano
quanto a dor! E, foi mediante a lembrança da dor que Tomé chega à divindade do Salvador. Se Ele sofreu, tenho
segurança que as minhas feridas serão vencidas na ressurreição (Jo16.33). Pois, o alento à nossa dor ocorre no trajeto
que perpassa o buraco nas mãos do Salvador e se chega até p Seu Coração. Tomé entende que o sofrimento não é
um lugar de onde Deus se ausenta. Na verdade, nenhum crente pode dizer “Senhor meu e Deus meu” sem que antes
tenha visto as feridas do Salvador (Is 49.16; Jo 20.29; 1Pe 2.24).
Evidentemente que a “Teologia da Cruz”, agora, cede lugar à identificação do Cristo Ressuscitado. Contudo,
a ferida liga a cruz à ressurreição. E é esta que conduz a confissão de Tomé.2
Todavia, permanece a verdade: não existe fé verdadeira em um Deus sem feridas (Zc 13.6)!
Eliandro Cordeiro
Maringá, 4 de agosto, 2024
Senhor, feri-te tão profundamente o coração que me é impossível, nas feridas visíveis contemplar as invisíveis. Mas, superaste-me, pois foi no local onde feri-Te
que me agarrastes. Do que o teu amor por mim foi capaz!
1 Neste caso, paradoxo não é o mesmo que contradição.
2 MULLER, U.B. A encarnação do Filho de Deus. Loyola: São Paulo, 2004, p.70: “Somente o que crê, e que tem o Espírito, vê que a morte de
Jesus representa um passo no caminho de sua exaltação, enquanto os judeus, representantes da descrença, veem apenas a morte.”