
Ânimo!
Eu disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci
o mundo” (Jo. 16.33).
“Ânimo!”
Por toda a parte por onde andava Jesus tinha esta palavra constantemente em seus lábios. E isso não era um
vício de linguagem como aquela pergunta que às vezes fazemos à alguém: “tudo bem?” – quando na verdade não
nos interessa a vida dela.
“Tende bom ânimo!” Com qual naturalidade lemos essa ordem do Senhor? Quantas vezes encaramos essas
palavras como um leve “vai passar…” A vida é assim mesmo…”. É percebendo o pouco peso desta ordem que
entendo precisar constantemente de ânimo. E não falo daquele ânimo que me ajuda a atravessar uma semana difícil.
Preciso de ânimo para a alma reagir à vida! É a vida que constantemente me cansa e desanima. Eu me desanimo
comigo mesmo! Como me canso de mim! Como me frustro! Confesso que às vezes repito Clarice Lispector ao dizer
“Estou cansado. Não suporto mais a rotina de me ser.”
E não falo de um cansaço de acordar cedo e sair para o trabalho, retornando apenas para piscar os olhos e,
ao reabri-los, seguir o castigo de Sísifo. É um cansaço da alma. Cansaço que me obriga sempre a levar Fernando
Pessoa1
a ler Mateus 11.28 comigo. Preciso lembrar-me a quem deixar os muitos pesos desnecessários que carrego.
Se você, assim como eu, se desanima consigo mesmo ou com a vida, eis aqui duas considerações que te podem
ajudar não apenas a vencer o dia, mas a si mesmo:
1- Considere Quem diz “tende bom ânimo”.
Como o próprio Jesus via a vida? O que Ele sabe dela? Considere o que Ele mesmo passou sendo o Próprio a
Vida!
Jesus não está dando um conselho aos crente para que tenha ânimo. É uma ordem. Ele precisa romper com os
nossos medos oriundos de pouco conhecimento sobre o Seu poder e, por que não, da própria ignorância acerca da
nossa vida aqui. Experimentamos pouco do poderoso conforto que se pode ter em Cristo mesmo em aflições.
Aquele que conhece todas as coisas (com razão, pois as fez!) sabe que não temos motivos para o desânimo.
Mesmo Paulo, quando o próprio Senhor Jesus lhe fala das lutas futuras que lhe esperavam em Jerusalém, não deveria
se desanimar. E parece que Paulo soube bem disto, pois foi a Jerusalém enquanto muitos crentes tentavam dissuadilo a não ir (At.23.11). Paulo não reputava nenhuma palavra da boca de Cristo como que dita em vão.
Lembre-se que, Quem ordena o bom ânimo é Aquele que está prestes a se arrostar com a morte (v31,32). Ele
abraçará a morte e a matará estrangulada em seu peito. João traça o caminho da cruz passando por esta exortação
do Senhor aos discípulos. O mesmo peito que deu vida ao autor deste Evangelho, quando ouvia o coração do Senhor
dizer: “Eu te amo até o fim” (Jo 13.1,25), Ordena o ânimo. Qualquer homem cuja cabeça incline no peito do Salvador
jamais duvidará do seu amor. As aflições nunca serão prova de abandono do Senhor Jesus.
2- Considere a atitude Daquele que afirma ter motivos para você responder com ânimo às suas dores.
“Tenham ânimo!” Há determinado poder que se esconde nesta ordem; e não simplesmente um conselho. Há
um motivo latente para o ânimo apesar de. Jesus vive para fazer com que aos outros a vida valha a pena.
O Salvador sabe que os seus discípulos hão de abandoná-lo (Mc 14.27), mas olha para além do fracasso desses
homens (Lc 22.32). Precisamos considerar o que o Senhor quer significar com essa consoladora ordem: 1) “neste
mundo […]”: eis a realidade da vida; 2) “[…] eu venci o mundo”: eis uma realidade superior para além desta vida!
Mas por que só obtemos como maior certeza as aflições deste mundo ao invés do consolo que se estenderá
até a nossa morte? Por que dores que nos rasgam a alma, e parecem dizer que estamos esquecidos por Deus, são
mais facilmente percebidas do que a maravilhosa promessa de seu sopro em nossas almas a elevar-nos de nossos
infernos ao toque dos nossos dedos nas asas de algodão dos anjos na glória?
Nosso Senhor é sábio e conduziu a mente dos seus discípulos ao ponto central de suas vidas que seriam
futuramente mais difíceis sem Ele. O Senhor deixou claro que a base fundamental do ânimo do crente é a Sua vitória
(de Jesus) e não as vitórias pessoais dos cristãos (1Jo 5.4). Jesus, antes da cruz, e de sua certa ressurreição, diz aos
seus discípulos: “Eu venci o mundo.” Logo, esses homens não deveriam cobrar ânimo à partir de suas realizações
pessoais ou de manifestação ode algum poder e dom recebido. Deveriam encontrar o ânimo aquilo que o Seu Senhor
fez! Ele é a fonte do nosso ânimo e não o nosso eu.
Você sabe que o Evangelho significa “boas novas”. Não parece óbvio que estamos desprezando demais esta
grande verdade e permitindo-nos escapar qualquer motivo de ânimo? Pois, não se trata de um ânimo provindo de
um meio falível deste mundo, mas do próprio Cristo que venceu a morte. E, se houve um “jeito para a morte”, por
que não haveria para as nossas dores?
1 Refiro-me ao poema de Álvaro de Campos, o Fernando Pessoa, intitulado “Cansaço”.
Comparado o peso ínfimo das dores com o peso de gloria, pergunta-se até que ponto a alegria do Evangelho
nos inunda (Mt 13.44ss; 2Co 4.17,18)? Até que ponto a noção de pecado perdoado nos invade a alma (Mt.9.2)? Até
quando a falta do dinheiro será maior do que o preço pago pelos meus pecados (Rm 4.25;1Pe 18.1ss).
Depois do discurso sobre a sua partida, Jesus ora por seus discípulos (Jo.17.1ss). Eles estão nas mãos de
Deus, portanto, garantidos por Cristo. Se o mundo foi derrotado quando Cristo abraçou a homens como Pedro,
Tomé, eu e você, o desânimo não morre sufocado em Seu abraço? A gente não enche os pulmões da alma com o
hálito de vida quando deixamos o fardo pesado nos braços do Salvador?
Compreende um dos motivos da oração no capítulo seguinte a este? A intercessão do Senhor não é uma
receita para o sucesso daquele que sofre; é a paz àquele que descobriu que o poder que este mundo oferece é sopro
fraco demais à almas cansadas. É só a promessa de um domingo de sol, mas não da eternidade de céu azul. Faz
balõezinhos de papel de crianças subirem, mas nunca uma alma cansada sentir-se leve.
Quando cristo expirou na cruz, o seu vento entrou em nossas almas vazias de vida (Lc23.43) e abriu-lhes
espaço para guardar ânimo até que o nosso corpo o imite, esvaziando nós também os pulmões pela última vez aqui.
Ora, Ele inflou a alma do cansado com o Seu sopro para toda a eternidade; não apenas para começar uma
semana difícil (Is 40.29), mas para seguir forte até sufocar o choro no abraço apertado da Liberdade derradeira (Mt
25.34; 2Tm 4.6; Fp 3.21).
Eliandro Cordeiro
Maringá, 18, mar, 2025
Senhor, se me faltar o ânimo para ir a Ti, arraste-me a alma com a suave voz do Teu Poderoso Espírito,
Por Jesus eu oro,
Amém.