Esqueceu-se de se lembrar de esquecer?
“[…] Deus me fez esquecer de todo o meu sofrimento […].”
Gn 41.51.
Esquecer não é amnésia; é poder se lembrar sem sentir a dor.
José sabe que sofreu, mas fala sem dor ao ver o nascimento do seu menino, Manassés.
O que este homem encontrou que lhe fez ressignificar a dor do passado? A sua alegria atravessava o futuro do garotinho que lhe ocasionou a paternidade. Ele encontrou Deus no seu passado, percebeu-O no presente e O viu
no futuro (Hb 11.22).
José tem história triste. Desde a família, vendido pelos próprios irmãos, lançado na prisão por ser fiel a Deus
e ao seu senhor. Depois, sofre o esquecimento ingrato de um colega. Vendido, longe de casa, separado do pai desde
os seus 17 anos. Aparentemente, nada em seu favor, exceto o que atravessa a sua biografia (cf. Gn 39.2,3,21,23).
Porém, no nascimento de seu primeiro filho, o homem se lembra de Deus e não de sua dor: “Deus me fez
esquecer…”. Para se dizer que Deus o fez esquecer é preciso se lembrar do que se esqueceu, não? E isso é trazer a
lembrança para o presente. Será que todas as vezes em que José chamava o filho não se lembrava o motivo de terlhe dado o nome? Parece que esquecer não é, segundo José, pôr uma pedra em sua dor; é pôr Deus. Evidente que
o mínimo esforço mental faria José se lembrar dos irmãos e se perturbar com suas maldades.
Ele, mesmo consolado por Deus, agora, governador do Egito, ainda lembra da sua aflição (v.52). Ao dar nomes aos filhos, é clara a lembrança dos sofrimentos. Contudo, mencionar o quanto sofreu, sem repetir no coração a intensidade das dores do passado como se vividas agora, é um presente divino. Tal presente se vive com o coração no agora e olhos no amanhã.
É algo que nem sempre vem pronto, mas se faz. É um esforço mnemônico da alma que crê.
José não põe o passado à sua frente. Parece ver as mãos de Deus a escrever-lhe a história (Hb 11.22). Para
este homem, Deus não é uma borracha que apagar o seu passado- é o remédio que cura a ferida da sua alma e
certificar-lhe de que tudo estará bem no futuro. É olhar para o passado e ver o futuro!
O passado de José não foi apagado. O que ele viu foi Deus escrevendo o seu futuro. E, paradoxalmente, o
futuro só pode ser lido quando vira passado. Então, visitar o passado implica em discernimento. Ou seja, uma certa
capacidade para separar a Verdade de Deus das projeções humanas (Gn 50.20). Cada letrinha que a mão divina
contornava era para José prova da soberania de Deus (Até o esquecimento do copeiro lá na cela!).
E, se Deus lhe cuida do futuro, por que não do seu passado? Não é curioso que aos seus filhos José deu nomes hebraicos e não egípcios (v. 50)? Os dois filhos de José bem podem significar “esquecer e prosperar” (As Escrituras nos dizem neste texto o porquê de seus nomes!). Não sei muito bem como alguém consegue prosperar carregando um coração cheio de cordas atadas ao passado rumo ao futuro. Tentar entender isso cria em mim a imagem de um homem, cordas ao redor da cintura, puxando alguma pirâmide egípcia na areia.
C.S.Lewis em seu livro “O Grande Divórcio”, descreve o inferno como um lugar onde ninguém esquece nada.
Ali, os homens lembram-se de cada ofensa, de cada troca cruel de palavras, de cada coisa errada que já lhes foram
feitas, e todos são totalmente implacáveis. Evidentemente que as lembranças, segundo Lewis, são diferentes no céu.
Lá, todas essas coisas são deixadas de lado porque tudo se tornou novo.
Então, esquecer pode ser uma bênção. E não falo de Alzheimer. Falo daquele esquecimento provocado- o
que se procura colocar a lembrança em algum lugar onde jamais a achará. O lugar mais segura para se perder a
memória é em Deus (Is. 43.18,19; Ap. 21.5; Fp3.8). Sem chances de reaver. Ao procurar onde a guardou, se
encontrará Deus. Ele é Quem mais precisamos nos lembrar (Ademais, podemos esquecer qualquer coisa- até mesmo
a data do casamento!).
Conforme Lewis, não se esquecer pode ser um inferno ambulante. Antiteticamente à história de José, nem
mesmo viver em palácios ou realizar os sonhos transformará o sucesso em céu, caso não esqueça do passado. O que
seria da nação de Israel, de Jacó, se José não houvesse se lembrado de esquecer? Ele se esquece de tudo, menos de
Deus.
Pôs Deus em seu passado e pôde aceitar o seu presente (E eu nem falo do futuro).
Nem preciso aplicar algum princípio bíblico, alguma lição, à tua vida, né? Já entendeu.
Lembre-se de esquecer e esqueça-se de lembrar!
Eliandro Cordeiro
Maringá, 12, jun. 2025
A boa memória não me ajuda.
Senhor,
Não me deixe esquecer de não me lembrar do passado de dor.
Mas, lembre-me sempre de esquecê-lo no futuro e de me lembrar do futuro no presente.
O meu coração e memórias estão ligados por um caminho que só o Senhor percorre sem tropeçar. “Luz e trevas são a mesma coisa para Ti” (Sl 139. 12).
Em nome Daquele que é sempre o mesmo, ontem, hoje e eternamente (Hb. 13.8).
Amém.