
“Mas somente o navio”[1]
“Mas, já agora, vos aconselho bom ânimo, porque nenhuma vida se perderá dentre vós, mas somente o navio” (At.27.22).
Só se perdeu o navio na difícil viagem do apóstolo Paulo rumo a Roma, onde morreria anos depois.
Considerado pelos judeus e romanos mais um marginal dentre os tripulantes, Deus reserva-lhe um acento garantido em seu encontro com o imperador (At.9.15; 23.11;24.27). É uma viagem que faria qualquer leitor deste texto questionar se Deus realmente o amava se estivesse no lugar do apóstolo. Se não bastasse estar junto a escravos, marginais, condenados- um homem comum entre os homens comumente incrédulos; um cristão solitário- o homem de Deus ainda precisa animar esses desesperançados equilibrando uma pregação chacoalhada pelo mar bravio.
Chama-me a atenção que, depois de um anjo falar a Paulo que nenhum homem morreria, ele se preocupasse com o estômago vazio de todos. Por que se preocupar com comida quando as vidas estão em jogo? Quem quer pão para logo morrer?
Pus-me a pensar que o essencial da vida não é o prato diferenciado no dia a dia; mas o prazer em se comer porque se tem fome (v.35-38). Com frequência nos esquecemos que o que nos motiva a viver de segunda à segunda não é o almoço do domingo, mas o boleto que comprova aos credores que estamos vivos! Desejamos o frango de domingo feito pela mamãe, mas nem por isso deixamos de comer o almoço básico de segunda a sábado (Mt.6.11).
Animados pela palavra do apóstolo e pelo pedaço de pão servidos naquela madrugada escura, os tripulantes conseguiram desfazer do grande peso de trigo no navio. Nunca se alimentou o mar sem que se esperasse o retorno do investimento nas ondas financeiras deste mundo quanto naquela noite escura. Ah! O muito trigo pesando o navio valeu menos do que o punhado de pão que os mantinha vivos flutuando na esperança!
Qualquer desespero superado nos ensina a sermos gratos! Costumo pensar que é a gratidão (cf.v.35) quem nos dá a satisfação apropriada às coisas desta vida. Não interessa-nos se muito ou pouca coisa que carregamos em nossa viagem, é a gratidão a Deus quem nos faz ver que a nossa vida vale muito mais do que qualquer coisa que carregamos conosco em nosso frágil barco. A satisfação verdadeira surge-nos quando a pálida riqueza afunda no oceano da incerteza (v.38).
Somente o apóstolo, naquela noite escura, poderia ensinar que o verdadeiro sentido, na longa viagem dos homens nesta vida, se alcança ao içar âncora e alçar velas não ao curso do vento, mas ao sopro de Deus (39,40).
Para muitos, morrer na incerteza desse mar, agarrados ao trigo, é a forma mais determinada e absurda de respirar pela última vez em busca de sentido.[2] Contudo, um naufrágio pode-nos ensinar que a vida é maior do que qualquer coisa à qual se deva agarrar (43,44). O que nos salva a vida não é coisa alguma destroçada no mar, mas Aquele que é a nossa própria Âncora e Farol!
Embora Lucas nos informe que os homens desta embarcação se agarrassem aos destroços, sobretudo, se salvaram agarrados à esperança do apóstolo. O que Deus falara ao homem de Deus é a salvação.
Até que tudo esteja perdido no fundo do mar; que os nosso maiores tesouros afundem no oceano do desconhecido sofrimento, onde ninguém mais o alcance, ainda somos capazes de lutar com braçadas, pernadas afundando crendo que é um mergulho!
Ora, a vida é mais do que uma viagem com paisagens bonitas. A vida não é uni-existencial. Ou seja: ela não se sustenta apenas num ponto básico. Não é só estudo ou trabalho. Afundar no vestibular não é mais importante do que salvar-se na areia do mar. Perder o emprego, bater o carro, engordar ou ficar careca… Às vezes, ter só o pão no estômago é mais do que todo o trigo carregado no navio que nunca chegará ao porto.
A confiança em Deus nos faz entender que não importa o que percamos nesta vida, isso será sempre menor do que aquilo que Ele tem a nos dar (v23). Sempre será menor do que a sua graça (Jn1.5). Ele sabe aonde nos conduz. De navio ou a nado, lá Ele nos levará seguros (v.26). Mais importante do que perder coisas nesta vida é não se perder nela.
Não chore o trigo lançado ao mar, tampouco, o navio destroçado pela tempestade. Você não saberia com certeza aonde eles chegariam. Não chore por aquilo que se destroça nas tempestades desta vida, como se você valesse menos do que esse. Aqueles homens da narrativa de Lucas descobrem como mar não se impressiona com os valores transportados em suas ondas. Nunca há trigo demais que baste à fome da tempestade, ou navio grande o suficiente que a impeça de o quebrar.
Porém, nenhuma das pequenas alma humanas (pretas ou brancas, ricas ou pobres, boas ou más) podem ser engolidas pela fome do acaso cruel se, até o trigo lançado ao mar, alimenta os peixinhos (Mt 17.24-27).
De tudo o que você já perdeu na vida, às margens deste mar, mirando lá onde as ondas se formam, vê se realmente o navio destroçado te era tão importante (Mc.8.36). “Perdeu-se só o navio.”
Eliandro Cordeiro
Maringá, 16 junho de 2024.
[1] Ler Atos 27 pode te ajudar a ter melhor proveito desta mensagem.
[2] Viktor Frankl, neuropsiquiatria austríaco, fundador da Logoterapia (terceira escola vienense de psicoterapia) tem uma interessante teoria sobre o fundamento da vida no livro Em busca de Sentido.