
Tic-tac
“Até quando, Senhor?” “Até quando, Senhor?” “Até quando, Senhor?” “Até quando, Senhor?” (Sl 13.1-3).
O salmo começa com um homem que corre contra o tempo. Das profundezas da alma sobe em direção à superfície e encontra fôlego na graça e esperança. Facilmente podemos observar o tom desesperador do salmo e o seu fim cheio de confiança e louvor.
Este homem parece se ajoelhar no fundo de um vale cujo sol nunca desponta. Quando se levanta, parece subir de tal vale nas asas de um anjo. Lá de cima ele contempla aquilo que somente os fiéis veem: o controle que Deus tem de todas as coisas.
Porém, Davi nos conduz em sua anatomia da psique (alma) revelando todas as nossas agruras e completa ignorância quanto ao tempo de Deus. Em apenas três versículos este homem questiona a Deus quatro vezes sobre a hora em que O verá agir.
Para Davi, Deus deveria ignorar o tempo e socorrê-lo logo. Deus, no desespero deste pobre homem, se assemelha a um amigo que o esquece, abandona ou dele se esconde. Evidentemente que a Deus é impossível esquecer-se de alguém. Aquele que sabe o nome de todas as estrelas e deu a Ciro tal nome duzentos anos antes de ele nascer, se esqueceria do Seu rei (Is 45.1-13)? Mas, a relação de Davi com o Senhor é íntima. Não há em Deus esquecimento, mas, segundo o homem que ora, uma recusa de ajuda prática. E é assim que ousa falar a Deus.
O que Davi expressa a Deus em oração? Como ele desenha o estado da sua alma? Cada “até quando” seu aponta um sentimento, uma necessidade: 1) Até quando esquecido por Deus?; 2) Até quando Deus se esconderá dele?; 3) Até quando o desassossego na alma?; 4) Até quando o inimigo vencerá?
Há uma dor na alma de Davi e ele a expressa sem cerimônia Àquele cuja a eternidade se serve para capturar o fugidio tempo (Tg 4.14;2Pe 3.8). É Deus quem acerta os ponteiros da eternidade. Portanto, a quem mais Davi poderia reclamar sobre demora?
A gente, não poucas as vezes, se pergunta, como Deus “tolera” orações terrivelmente humanas (e, às vezes, desaforadas!) dirigidas a Ele. E ficamos horrorizados vê-Lo respondendo amorosamente a estes atrevidos orantes! Mas, não é isso mesmo que é uma oração? Jesus, contrastando a relação verdadeira do discípulo com os fariseus, não disse que Deus é Pai (Mt 6.9-13)?
Talvez, se lêssemos o final deste salmo, compreenderíamos um pouco do que Deus sabe que está por trás de cada nota de desespero, de cada palavra que jugamos petulante, do salmista. Deus parece interpretar palavras verdadeiras durante orações desesperadas de forma diferente de nós. Ele sabe “provocar” a fé (Mc 7.26-28). Pois, no silêncio de Deus a resposta do crente surge: “No tocante a mim…” (v.5,6). A confiança na graça aparece e isso muda tudo! Não seria isso a voz de Deus que a fé levou até a alma do salmista, que grita de lá longe?
A graça de Deus não torna nenhum crente em coitadinho e nem em super-herói. Ela se concentra Naquele que é eternamente inamovível: “no tocante a mim…”. Ainda que haja gritos por parte dos inimigos e silêncio da parte de Deus, eu estou firme em Deus! É assim que termina o salmo que começa angustiado com o relógio divino. O coração parece assumir o tic-tac do relógio de Deus e, incrivelmente, encontra motivos para o Louvor grato: “Cantarei, porquanto me tem feito muito bem…”
Onde Davi encontra bênçãos recebidas? Tudo o que ouve é o som do “grilo da noite escura da alma”. Ele não estava se sentindo esquecido, sozinho. Deus não fincava-lhe os ponteiros do Seu relógio sangrando o coração? Davi está vendo o mundo pelos olhos de Deus! É assim que termina este salmo: luta contra o tempo e, depois, dorme ao tic-tac dos cuidados de Deus.
Quando os ouvidos do crente estão fechados para a voz de Deus, a graça lhe abre os olhos e a boca (faz ver aquilo que o tempo pode tentar ofuscar): “Cantarei” (6).
O salmista nos ensina que, quando não ouvimos nada da voz divina, os nossos olhos O encontrarão em todas as partes do passado: “me tem feito muito bem… (v.6)” “Abre os meus olhos…(v.3)”. Neste caso, os olhos funcionam tão bem quanto os ouvidos!
Eliandro Cordeiro
Maringá, 05, mar, 2025.
Preciso ajustar o meu relógio com o de Deus.