
Eu: moeda perdida.
“[…] Alegrem-se comigo, pois encontrei a moeda perdida!” (Lc 15. 9)
Cristo, à semelhança da mulher que varreu toda a casa até que encontrasse a sua moedinha, varreu todo o
mundo coberto em sombras até que me encontrou.1
Eu estava em algum lugar caído. Extraviei-me do Seu tesouro. Uma moeda em algum canto no chão, talvez.
Duvido muito que ele tenha me encontrado no canto escuro, no chão da casa, por que viu algum brilho refletido em
mim. Foram os seus olhos atentos ao vasculharem o chão empoeirado que me encontraram.
Contrariamente ao imposto que Cristo disse ter cunhado na moeda a face de César, em nós, moedas
perdidas, temos a esfinge de Deus. Não voltamos a Cesar, mas ao Senhor dos Senhores. Conforme Agostinho, “a
César, as moedas. A Deus, a vós mesmos.”
Ora, Aquele que viu um peixinho no Mar da Galileia e o dotou de curiosidade, ao ponto de beliscar uma
moedinha no fundo d’agua, não haveria de me encontrar (Mt 17.24-27)? Se aquela moeda engolida pelo peixe,
outrora perdida, voltou a César, por que eu não voltaria ao meu Rei? Não está em mim a sua impressão (Lc 20.20-
26)?
2
A moeda (dinheiro de um dia de trabalho naquela época) nada fez. Estava ali, perdida, sem que disso me
desse conta! Mas, aquela mulher insiste, acende a lamparina, varre, levanta móveis, bate tapetes… Foi impossível
não refletir o brilho da candeia sustentada em sua firme mão: dava para ver a sua imagem em mim. O frio metal
brilhou (Gn 1.26)!
A mulher abaixou-se até ao piso de chão batido (Mt 12.40; Ef 4.8-10;1Pe 3.18-20), as unhas como alavancas,
me pegou e fui guardado. Quando ela me apertou em sua mão, percebi-me comprimido às outras nove moedas
(v.8b; Jo 10.16). Pensei em o porquê de tamanho esforço se já tinha as nove (Jo 6.37,38).
Afinal, uma moedinha dá pra comprar o quê lá no céu (Is 43.26)? Nada; mas provoca uma festa imensa (v.10)!
Só quem nunca se viu perdido é que não percebe isso (Lc 19.10).
3 A alegria por ter uma moedinha de prata
no céu é surpreendente, uma vez que lá até a rua é de ouro (Ap 21.21).
Eliandro Cordeiro
Maringá, 05, mar, 2025.
Senhor, certamente, não és sovina. O que ganhas comigo em teus tesouros, senão a alegria de ter-me junto a ti?
1 As três parábolas do capítulo 15 do Evangelho de Lucas retratam “coisas” perdidas. É uma clara resposta de Jesus aos Fariseus (Lc 15.1,2)
que não entendiam o porquê Jesus andava com pecadores. Fica claro que Jesus é Deus buscando os homens. Nessas parábolas, Deus (Jesus)
é o bom pastor, a mulher que varre e o Pai do garoto que sai de casa. A nossa atenção deve ser total não à ovelha, à moeda ou ao garoto, mas
nas figuras que representam Deus salvando os pecadores. Neste texto, aqui, a moeda somos nós.
2 Se na moeda do imposto pago à Roma tem a face de César e deve ser pago, a imagem de Deus no homem exige deste que ele se entregue a
Deus, pois, traz em si a imagem de Deus. Esta é uma das interpretações desta passagem.
3 Não é sem mais que em honestidade pediu o salmista: “Ando errante como ovelha desgarrada; procura o teu servo […]” (Sl 119.176).