
Palavra e ato
“Porque a palavra do Senhor é reta, e todo o seu proceder é fiel” (Sl 33.4).
Em Deus, palavra e ação são inseparáveis. Não há Nele pensamento algum furtivo. Nenhuma palavra lhe
escapa ao pensamento. Na verdade, para Deus, desnecessário é pensar em como agir, igualmente, agir sem prensar;
palavra e ato são inseparáveis, embora não sejam a mesma coisa.
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De igual modo, é correto afirmar que não existe em Deus nenhuma palavra vazia (Is 55.11). Parece evidente
que o salmista tenha em mente a criação de todas as coisas ex nihilo2
; chamadas todas coisas pela palavra de Deus.
“Haja luz […] e houve luz”, sugere que a ordem não é apenas cheia de poder, mas de criatividade ordenada. Tal
criatividade expõe a providência de Deus para com a Sua obra. Por isso Moisés conclui: “E viu Deus que era bom” (Gn
1.14-19). O “bom” aqui significa apropriado para o fim designado (mais uma vez a ideia de providência).
Assim, nada do que Deus chamou à existência se nega a existir: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e
tudo passou a existir” (Sl 33.9). É proveniente desta verdade que o salmista convida os crentes a louvar a Deus, pois,
a obra de uma Mente Única é consistente consigo Mesmo (Sl 33.1-3,6).
Ah…! A certeza de que não há incoerência na Natureza de Deus sem dúvida inspira louvor! Se louvamos a
honestidade de um homem que age com integridade segundo a Lei, muito mais a Deus que nenhuma lei externa O
compele a ser fiel, senão, a “lógica interna” de Seus Atributos (2 Tm 2.13)!
Você está decepcionado com a verdade dos homens? Promessas não cumpridas? As palavras dos teus
amores mundanos são vazias? São como poesia que não fala de flores? Em Deus, palavra e ação não divergem. O
coração do crente deve descansar em Sua promessa. Prometeu-nos salvação e deu de Si Mesmo na Pessoa de Seu
Filho Jesus (Jo 3.16). Palavra e ação consistentes até depois da morte de Jesus. Prometeu-nos que em cada dor e
sofrimento estaria conosco (Is 43.2; Mt 28.20; Hb 13.5).
Mesmo quando se duvida que exista um homem realmente feliz neste mundo, ou quando se murmura
contra a Sua própria existência (ainda que seja negado ou chamado a provar a Sua Presença), Deus não se furta a
responder (Jó 3.1-11; cf. Jó 38.1ss). Tanto ao coração do crente quanto ao do ateu, lá está Ele no buraco cardíaco do
boneco de barro (Gn 1.26; 2.7-25; Sl 42.1ss). O desespero humano ao clamar ou em ofender a Deus não é prova de
Quem realmente lhe falta (Sl 53.1)? Não é como a impossibilidade de existir um buraco sem o barranco?3
O contrário também é verdade. Maioria das vezes, procuramos por Deus onde se ouve gargalhadas e mesas
fartas. Nós O retiramos dos locais de dor. Calados pelo luto ou pequenos diante do inesperado, fugimos da insistente
ideia de que Ele não está presente- já que não sei explicar racionalmente a Sua Presença com o sofrimento no meu
peito, busco me iludir com qualquer coisa menor do que a verdade de que para Deus não existe nenhuma prova de
existência de Deus (Hc 1.12-14. Cf: Jo 11.14-27)! O mal não O assombra (Is 40.18). E, se Ele responde ao homem em
suas angústias, é por graça e não por medo de ser desacreditado pelo barro (Mc 4.28; Tg 1.13).
Porém, Deus está onde há sofrimento (Sl 41.3; 2Tm 4.16-18). Pois, se o sofrimento existe, então, Deus existe!
Carl Jung, psiquiatra suíço, pai da Psicologia Analítica, afirmou que “Deus entra pela ferida”.4 Embora eu discorde das
teorias jungueanas, não discordo desta afirmação (Jó 5.18). Deus não se furta à dor humana. Aliás, Deus sofre com
maior intensidade do que qualquer homem (Is 52.14; 53.3; Hb 4.15)” “Coloca o dedo nas feridas das minhas mãos”,
ordenou Jesus a Tome, depois de haver ressuscitado (Jo 20.27).
Ora, para o salmista, neste mundo não há contradição entre o que Deus fala e faz. Deste modo, o crente que
sofre aguarda o enredo final de sua vida a fim de entender as costuras do falar e fazer de Deus. Numa de Suas mãos
está a agulha e noutra a linha (Sl 33.15). O coração do homem volta a bater totalmente feliz somente no último
ponto, no último nó, dados pelas mãos habilidosas do Senhor (Sl 33.18-21; Ez 36.26).
Eliandro Cordeiro
Maringá, 30, jan. 2025.
Aguardando o último laço do nó. Enquanto isso, ouço o que Ele fala.
1Observe a continuidade do salmo a fim de perceber o amor de Deus à justiça, o direito à bondade.
2Ex nihilo: Palavra latina que significa “do nada” ou “criação a partir do nada”. É uma terminologia propriamente judaico-cristã. Donde deriva
a própria palavra ‘criação’.
3“Aparentemente, então, a nostalgia que sentimos por toda a vida, nosso anseio por sermos unidos à alguma coisa no universo da qual nos
sentimos agora separados, por estar do lado de dentro de alguma porta que sempre avistamos pelo lado de fora, não é um capricho neurótico,
mas o mais verdadeiro indicador de nossa situação. […] Queremos algo mais que não pode ser posto em palavras. […] Somos convidados para
transpor a natureza, para irmos além do esplendor que ela refletiu.” LEWIS, C.S. Peso de glória, Thomas Nelson Brasil: RJ, 2017, p.46,47,48.
4 Só me lembro da sua frase. Nunca encontrei a referência bibliográfica.