
Uma espera paciente
“Esperei com paciência pelo Senhor; […]” (Sl 40.1).
Nos Salmos, maioria das vezes, a palavra esperar implica em fé. É o caso deste aqui.
Tanto que algumas versões trazem ‘confiar’ no lugar da palavra ‘paciência’. Mas, nem sempre
esperar é sinônimo de fé- e tampouco paciência, não é mesmo?
Pode-se esperar de várias formas, com comportamentos ou sentimentos diversos. Podese esperar cantando belos hinos ou num azedume tão grande na alma que a cada minuto brota
lá do fundo murmuraçõezinhas. E, no fim, essas coisinhas entopem os canais do coração por
onde jorram as águas da gratidão. Podem fechar as janelas da alma impedindo-nos de ver as
bênçãos que, mesmo sem pedir, recebemos (Mt 5.45,46). Logo, pode-se esperar de vários
modos; e às vezes até mesmo com paciência! Pode-se até mesmo esperar em Deus só porque
já não há mais nada mesmo a ser feito; é o que resta. Então, nem sempre é fé, mas impotência,
vulnerabilidade ou qualquer outra limitação que te impede de fazer o que deseja.
Mas o salmista não é assim. Ele não aguarda a resposta de Deus apressando-O. Ele
confessa que acha que o Senhor parece ter demorado, mas não deu uma ajudinha a Deus. Antes,
esperou com paciência. E, só depois de longa espera que o salmista diz “e Ele olhou para mim”.
Ora, a fé é paciente. Ela é capaz de ver o objeto do seu desejo ainda longe e dar-lhe tchauzinho
(Hb 11.13,39) até que o possa alcançar com as próprias mãos.
Conta-se a história de um homem que fez-se de ‘malandro’ em sua oração.
Chantageando a Deus ao citar as Escrituras, orou: “Oh, Deus! Na Bíblia está escrito que para o
Senhor mil anos são como um dia e um dia como mil anos. Então, dê-me agora o que te peço.”
Ao que Deus o respondeu: “Meu servo, espere um minutinho só.”
Certamente Davi sentia o tempo passar, mas a certeza de que Deus o responderia fezlhe sossegar as mãos. O longo tempo de espera pela resposta de Deus é percebido no conjunto
do verbo ‘esperar’ (Esperei com paciência’). Em nossa língua, ‘Esperar com paciência’ pode ter
um peso ou sentido menor do que o tem na língua hebraica. Pois, no hebraico, o verbo ‘esperar
confiantemente’ tem a ideia de duplicação intensiva. É uma forma reflexiva do verbo. Indica que
o sujeito está realizando uma ação em si mesmo- ação intensiva e repetitiva.1 Ou seja, a espera
de Davi se repete insistentemente nele próprio. Ele se põe a esperar. Semanticamente o salmista
está dizendo: “esperei, esperei, esperei, esperei, esperei, esperei, esperei, esperei, esperei…”
(Você já entendeu, né?). Depois de esperar “Ele se inclinou para mim.”
Talvez, eu no lugar do salmista deixasse de orar. Pensasse que Deus me esqueceu ou
não se importa comigo. Porém, Davi entende que orar não é fazer o braço de Deus funcionar
como uma alavanca em direção à sua própria vontade (Mt 6.10b). A sua oração não foi
prontamente respondida de uma só vez, mas só depois de repetidos dobrar de joelhos e,
provavelmente, muitas lágrimas.
Kierkegaard disse que “a função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente
mudar a natureza daquele que ora.” Assim, até que a minha natureza mude à vontade de Deus,
pode ser que eu precise orar mais e esperar, esperar, esperar, esperar, esperar… com paciência,
convivendo confiante que Deus tem o tempo em suas mãos.
2 É Ele, e não o Relógio de
Greenwich, a referência de tempo. As horas se espelham Nele e o tempo é Nele conservado.
Que tal você ler o Salmo 40 diferente agora e depois orar. Quantas vezes mais fará isso
eu não sei, mas certamente Ele te responderá.
Eliandro Cordeiro
Maringá, 17, out. 2024.
Ainda esperando ele se inclinar para mim.
1 É provável que o apóstolo Paulo tenha feito uso deste hebraísmo quando disse ter orado 3 vezes para que lhe fosse
retirado o espinho na carne (2Co 12.7,8).
2 KIERKEGAARD, S. Discursos Edificantes em Vários Espíritos. SP:Liber Ars, 2018.